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segunda-feira, 5 de março de 2012

A SAUDOSA ESCOLA DE SAMBA - OS BABECOS NO RITMO

Carnaval - Salão Grande do Padre João - Itapetim-PE
Da esquerda: Lila Piancó, Paulo Roberto Gonçalves, Dr. Soares e Edinólia, Zé Humberto e Bernadete
De pé: Fátima de Lozinha Piancó e Amaury Farias.


Enaide Alves, Filha de Manoel Messias (in memoriam) e da minha prima Isaura Piancó.
Seu Messias foi vereador, candidato a Prefeito de Itapetim e proprietário do mais famoso bar do centro da minha cidade natal.

O que a filha de seu Messias disse sobre a minha postagem: ITAPETIM, HOJE, SEM CARNAVAL
"Lusa,você, com seu talento e suas memórias, dá uma grande contribuição para nós Itapetinenses.Esta postagem leva-nos a um passado que nos traz muitas lembranças da nossa terra, de uma época em que nutríamos muitas esperança de um Brasil de futuro.
Lembro-me da letra da música do Dom e Ravel: VOCÊ TAMBÉM É RESPONSÁVEL


O que eu quero dizer, citando essa música, é que também somos responsáveis por PILARES IMPORTANTES DA SOCIEDADE, que vão desde à HISTÓRIA, à ECONOMIA, à CULTURA, à EDUCAÇÃO e à CIDADANIA, todas mencionadas nesta sua grandiosa postagem.Parabéns!"
25 de fevereiro de 2012 08:20
Com certeza o comentário de Enaide à minha postagem "ITAPETIM, HOJE, SEM CARNAVAL", tem como pano de fundo um desfile que aconteceu na minha terra no dia 7 de Setembro de 1968, quando um pelotão organizado por mim - na época em que fui professora da turma de professorandas do Colégio Normal Municipal -  fez suas evoluções ao som dessa música que acabamos de ouvir.

 Ozanira Alves (in memoriam), Nevinha Santos, Lila Piancó e Fia Ferreira
 Desfile do 07 de setembro de 1968

Vestindo blusas que traziam a inscrição "VOCÊ TAMBÉM É RESPONSÁVEL", o pelotão desfilou pelas principais ruas da cidade, e defronte ao palanque oficial fez suas evoluções. Nas mãos traziam um lápis gigante que simbolizava a alfabetização preconizada pelo MOBRAL (Movimento brasileiro de Alfabetização), sob o fundo musical da canção  postada acima.

Naquele ano estávamos em regime de Ditadura Militar, o meu saudoso pai era o Prefeito da minha cidade, e havia um programa de educação chamado MOBRAL ( Movimento brasileiro de Alfabetização), daí o tema escolhido para esse pelotão, em homenagem as classes menos favorecidas, de jovens e adultos, que não tinham tido a oportunidade de aprender a ler e a escrever.
"O Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL) foi um projeto do governo brasileiro, criado pela Lei n° 5.379, de 15 de dezembro de 1967, e propunha a alfabetização funcional de jovens e adultos, visando "conduzir a pessoa humana a adquirir técnicas de leitura, escrita e cálculo como meio de integrá-la a sua comunidade, permitindo melhores condições de vida".Criado e mantido pelo regime militar, durante anos, jovens e adultos frequentaram as aulas do MOBRAL, cujo objetivo era propocionar alfabetização e letramento a pessoas acima da idade escolar convencional. A recessão econômica iniciada nos anos oitenta inviabilizou a continuidade do MOBRAL, que demandava altos recursos para se manter. Seus Programas foram assim incorporados pela Fundação Educar." (Fonte : Wikipédia)
No dia desse memorável desfile, a minha prima Enaide tinha apenas 10 anos de idade, mas ela guardou a mensagem daquelas professorandas: "Você também é responsável", introjetou na sua consciência a responsabilidade que temos, enquanto cidadãos, de participarmos de projetos voltados para a melhoria da qualidade de vida do nosso povo. 
E foi imbuída desse pensamento que ela fez o seu comentário à minha postagem, porque entende que o carnaval é uma das maiores manifestações culturais do povo brasileiro, portanto, por sua vez, sua terra não deve passar ao largo.

Ela também guarda na sua memória, na memória dos seus tempos de criança,os encontros da juventude itapetinense, realizados no Bar de seu Messias (in memoriam), em épocas de carnaval.

BAR DE SEU MESSIAS - LOCAL ONDE NASCEU A ESCOLA DE SAMBA DE ITAPETIM

SONHAR NÃO CUSTA NADA- MOCIDADE INDEPENDENTE
 ?

Vejo velhos rostos conhecidos, de amigos queridos que já partiram para outra dimensão:
Luiz de Souza Lima, João da Cruz, Pedrinho Rêgo, seu Miguel Costa, seu Messias, Diniz Ventura, Geraldo da penha, Laudenor e seu Vicente Padre.
Mas vejo também os velhos amigos que, como eu, ainda estão por aqui sentindo saudades dos velhos carnavais: Evaldo Costa, Leão e Pedrinho Machado.

EFEITOS SONOROS BATUCADA E ESCOLA DE SAMBA
?

E foi nesse mesmo bar, no início da década de 1960,  que surgiu a primeira, única e última escola de samba , tendo sido seu primeiro chefe o conterrâneo Pedrinho Machado.
Era um sábado de carnaval quando a moçada itapetinense se reuniu no bar de seu Messias para beber e conversar. Começaram a tamborilar pelas mesas, bater em garrafas vazias, cantar e dançar samba, animaram-se e sentiram firmeza na batucada. 
Um deles lembrou-se de uma frigideira para dar mais vida ao batuque, outro sugeriu tocar em panelas de alumínio, e essas ideias sobraram para Dona Zefinha Malta, a filha de Dona Júlia dos Correios, pois foram buscar na casa dela esses apetrechos que, doravante, passariam a ter outra função, seriam os instrumentos da escola de samba que acabara de nascer.
Chamaram-na de "OS BABECOS NO RITMO", numa alusão a tribo que deu origem ao nosso povo: Babicos.

Saíram do bar e ganharam as ruas, e o povo ao ouvir o som que tomava conta da cidade, ia abrindo as portas para ver a escola passar,  as moças maravilhadas se juntavam a ela, sambando e cantando numa alegria sem igual. Ainda me lembro dos componentes: Os irmãos Pedrinho e Tontonho Machado, Carlos Rêgo, Carlos Malta, Zé Carlos Patriota, Zênio de Zé Côco, Zé de Martim, Inaldo de Zezo...

A escola crescia cada vez mais, a cada ano aumentava o número de seus participantes. Quando Pedrinho foi embora para Brasília seu irmão Tontonho assumiu a chefia em seu lugar. 
A organização tomava corpo, no ano de 1966 Carlos Rêgo, que estudava em Recife, incrementou a escola com tamborim, cuíca, abobô e outros instrumentos. Juntaram-se ao grupo, Hamiltom Ricardo, Nego João, Amaury Farias, Luíz de Carminha, Tonheiro de Sinézio, Jason de seu Júlio Jordão (in memoriam)  entre outros. 
Durante o dia a escola segurava o carnaval de rua, as famílias a convidava para entrar em suas casas, servindo bebida e aperitivos gratuitamente. Era como se fôssemos a Grande Família: "Sambava pai, mãe, filho, e eu também era da família e também queria sambar" ....

Finalmente a escola chegou ao seu apogeu. Era o que de mais belo tínhamos para os carnavais de rua. Agora era preciso mostrar as cidades vizinhas como os "babecos" sabiam sambar. Mas era preciso uma roupa condizente com o carnaval. Compraram tecido para as camisas, calças brancas foram decoradas com fita na lateral, contrataram uma costureira oficial, para não correr o risco de sair uma diferente da outra.
Dona Galiana ( avó de Linda Simões), foi a escolhida para fazer as roupas da escola. Maria Anunciada (Marica de Tim), foi convidada para ser a Porta Estandarte. 
Pediram a seu Raimundo Brejeiro (in memoriam) sua camionete velha que, de tão velha, tinha  uma placa com os seguintes dizeres: MAIS VELHA É A MÃE, com isso ele não precisava responder aos insultos feitos à sua amada camionete.
Em outros anos a "Mais Velha é a Mãe", foi substituída pela "Cafuringa", também de propriedade de seu Raimundo.

Depois de toda essa organização, a escola estava pronta para se apresentar nos municípios vizinhos. Ao chegar às cidades, a sistemática era a mesma de Itapetim, as famílias abriam as portas, afastavam os móveis e deixavam o samba rolar, serviam comidas e bebidas de graça.
Na lista da visita a São José do Egito,  a primeira casa era a do ex-Prefeito Simão Leite e da ex-Primeira Dama Dona Madá Patriota, ambos já falecidos. Em seguida iam à casa de seu Pedro Chicó (in memoriam), um dos maiores comerciantes daquele município, e depois seguiam para a casa de Dona Dulce, casada  com o médico Dr. Arlindo Leite Lopes (in memoriam).
Além de São José do Egito, a escola também visitava Teixeira, uma vizinha cidade do estado da Paraíba, lá eram recebidos por Augustinho Camilo, Lulu Cassiano, Zé Leite (in memoriam), entre outros.

Que pena! Não tenho fotografia da primeira, única e última escola de samba da minha terra. 

E assim, Naide,  assumo também a "mea culpa" de ter deixado morrer a nossa cultura carnavalesca , sei que também sou responsável por isso, pois, "da riqueza não vem a cultura, mas da cultura vem a riqueza" (Sócrates) e o carnaval é, sem dúvida, um grande momento para externalizar a cultura e a criatividade de um povo.
Muito obrigada por sua interação, é maravilhoso não se sentir só, é maravilhoso poder compartilhar os nossos sentimentos com os nossos amigos.

5 comentários:

Enaide Alves disse...

Esta música ” Você também é responsável” me remete a um tempo em que era ensinado às crianças à ética e o patriotismo seja através dos desfile cívico, na escola onde aprendíamos através da matéria de Educação Moral e Cívica, daí ter feito alusão a ela( A música) ao fato de também sermos responsáveis por ter deixado morrer o carnaval de nossa cidade ( Itapetim) sim, porque bem que poderíamos ter continuado com os apetrechos, ou através da cidadania, solicitado, revindicado atenção neste sentido, e hoje quem sabe? Não teríamos grandes percussionistas hein? E claro, não teríamos também grandes compositores de sambas e marchinhas carnavalescas. Dado oi talento que temos para a poesia.

“ Eu venho do sertão tão seco e tão árido e continuo sonhando”

Lusa eu me lembro dos encontros deste pessoal no bar do meu pai onde reinava a paz , alegria, irmandade e fraternidade, me lembro como era bom a chegada do carnaval, com mela,mela de adultos e crianças jogando jatos de águas em direção uns dos outros, da brincadeira saudável onde se pulava o carnaval jogando confetes e serpentinas nas matinês( Para as crianças. E a noite tinha o carnaval para os adultos.

Ah, não posso esquecer que também tinha os papangus e os mascarados que eu tinha tanto medo que corriam para debaixo da cama e lá ficava por horas com o coração batendo.

Obrigada minha prima querida por me deixar emocionada lendo esta tua narrativa de nossas memórias.
Beijos
Enaide

Anônimo disse...

QUE MARAVILHOSO RESGATE DOS CARNAVAIS DE OUTRORA EM ITAPETIM EU LEMBRO QUE ESSA ERA A GALERA DA ALTA SOCIEDADE , VER BEM OS COMPONENTES E PARA ONDE IAM EM SÃO JOSÉ DO EGITO , PARA CASA DAS MAIS ILUSTRES FAMÍLIAS. É DIGNO DE NOTA A CRIATIVIDADE , A ALEGRIA DA BANDA DOS BABECOS , FAZIA SUCESSO , UM EXEMPLO A SER RESGATADO . O DESÃNIMO DA RUA NA SEMANA DO CARNAVAL DESSE ANO CHAMOU ATENÇÃO ATÉ DOS MAIS VELHOS : CADÊ OS PAPANGUS , QUE CHEGAVAM ,ENTRAVAM , COMIAM E SAIAM LEVANDO MAIS GENTE NO GRUPO? QUANDO PASSEI EM RECIFE OS BLOCOS DE GENTE DE TODAS AS IDADES JÁ ESTAVAM ATRAPALHANDO O TRANSITO NAS RUAS . NA BAHIA AS CIDADES PEQUENAS TODAS TEM CARNAVAL ANIMADO .O POVO REAGE...É ASSIM QUE O POVO DE ITA TEM QUE FAZER . ABRAÇO DE carlinda

Linda Simões disse...

Lusa,

maravilhoso resgate!Posso imaginar e compartilhar imagens do coração.
Vamos resgatar esse elo que se partiu da "corrente"?!Somos responsáveis,sim.

Um grande abraço,


Linda Simões

Lila Piancó disse...

Lembro-me deste desfile.Era a minha turma. Nós causamos sucesso e também comentários, pois estávamos de short, botas que foram confeccionadas por José Patriota.(Eu, Fia,Nevinha Santos, Enaide...).Esse pelotão foi organizado por você minha irmã que era a nossa professora e madrinha da nossa turma, a primeira de professorandas do Colégio Normal Municipal de Itapetim.Foi muito bonito!

Carlos Rêgo disse...

Difícil fazer um comentário numa postagem como esta, vem na minha mente a lembrança de uma Itapetim família, verdadeira mãe de irmãos e irmãs, que se amavam e se respeitavam numa harmonia sem igual, sem preconceito, participando dos eventos sociais,religiosos, esportivo respeitando as diferenças, se é que haviam. Quanto saudade, não consigo segurar as lagrimas.Dos componentes dessa Escola de Samba, quantos já partiram,dentre eles meus amigos Jason,Carlos Malta, Nêgo João, Gení de Julio Jordão, outros com saúde afetada como Zé de Martim, Luiz de Carminha, graças a Deus a maioria está aqui conosco. Ainda tenho uma esperança, que um dia possamos nos encontrar e mesmo com os cabelos brancos, outros já sem cabelo, mas com vida e com saúde para revivermos saudosamente aqueles carnavais, com certeza não teremos mais o mesmo pique,nem mais aquelas casas, que Lusa citou, para podermos entrar,mas como a vida se renova, encontraremos outras, com outros moradores para visitarmos, o importante é que possamos passar para esta geração, o exemplo de como se pode brincar um carnaval, com paz, respeito, cidadania e sobretudo como amar nossa terra e nossos irmãos.Não temos mais uma PPFOM,Gera Marques,Diogenes,Tota de Sá Quitéria na Portaria,Raimundo Brejeiro na Cafuringa,Maria José de João Ricardo com seu Leite de Onça,os banheiros da casa de Dona Jovem e principalmente o SALÃO GRANDE DO PADRE, é muita emoção, muita saudade, com a triste realidade: ESSE TEMPO NÃO VOLTA MAIS.Parabéns amor,sua narrativa foi brilhante,senti o cheiro da lança perfume Rodouro.